O alívio da quarentena


Que a quarentena está difícil, todo mundo sabe. Seja pela questão do isolamento, dificuldades financeiras, incertezas sobre praticamente tudo… Definitivamente não está sendo um período fácil. Mas apesar de todos os atuais desafios, existe também um certo alívio na quarentena. E é justamente este o assunto que pretendo focar neste texto. Sim, você leu certo. Alívio.

A princípio pode parecer loucura afirmar isso, mas a verdade é que junto com toda a carga pesada que a pandemia trouxe, veio também a possibilidade de desacelerarmos e olharmos para dentro de nós. Estamos privados dos encontros com amigos e familiares. Mas talvez estejamos vivenciando o encontro mais importante das nossas vidas: o encontro (ou reencontro) com nós mesmos.

Sair do automatismo muitas vezes cego que vivemos nos permite ver as coisas sob novas perspectivas. Coisas que fazíamos antes de repente parecem não ter mais sentido. Descobrimos que lugares que tanto frequentávamos não fazem assim tanta falta. Nem roupas. Nem pessoas. E o inverso acontece também. Passamos a valorizar o tempo em família.

Resgatamos boas amizades que se perderam entre um compromisso e outro. Descobrimos novas formas de fazer as coisas, de viver a vida. Poder trabalhar em casa, sem ter que enfrentar o trânsito todos os dias? Este é apenas um dos ‘alívios’ que a quarentena nos proporcionou. Talvez o mais visível. Mas há muitos outros que talvez demoremos mais a perceber…

Um deles é o ‘alívio social’, o que chega a ser um tanto irônico, já que estamos privados do convívio social e isso deveria nos fazer sentir falta e não alívio, certo? Depende… Temos saudade de sair com os amigos, viajar com a família? Com certeza!

Mas e aqueles compromissos, os famosos ‘compromissos sociais’ que fazemos para cumprir nosso papel social com o único objetivo de marcar presença, ver e ser visto para de repente somar alguns pontos com o chefe ou colega de trabalho? Tudo bem que, a essa altura, depois de meses de confinamento, é natural que muita gente já esteja sentindo falta até disso também.

Mas convenhamos, é um alívio não precisar ir a algum lugar que você não quer ou ficar fazendo social com alguém que você não suporta… Mais de uma pessoa já comentou sobre isso comigo e eu tendo a concordar. E não para por aí…

Para mim um dos alívios mais significativos é a libertação das comparações. Este sim é uma verdadeira bênção! Explico: a nossa mente não enxerga em termos absolutos, mas sim através de referências, da comparação com outros.

As redes sociais são um exemplo perfeito disso: quando você vê fotos em que todos estão felizes e bem-arrumados, indo a eventos incríveis ou viajando pelos destinos mais cobiçados do mundo e você está sentado no sofá da sala, de pijama, sozinho, há uma grande possibilidade de você se sentir menos feliz do que você realmente está.

Resultado direto de uma comparação automática que o seu cérebro faz sem você nem perceber. – Este, aliás, é uma dos meus maiores conflitos com as redes sociais, mas este assunto merece um texto só pra ele, voltemos aos alívios… – E se de repente todos estão trancados em casa, sozinhos (ou só com a família mais próxima), sentados no sofá? Ufa! Alívio!

Por favor, não me entendam mal, adoro viajar, sair com os amigos, frequentar festas badaladas, comprar roupas novas etc etc… Seria hipócrita se dissesse o contrário. – Provavelmente você também. – Mas a verdade é que está sendo um alívio não achar que a vida dos outros é mais interessante que a minha e me sentir pior por causa disso.

E acreditem, por mais consciência que a gente tenha que a vida de ninguém é incrível o tempo todo e que as pessoas tendem a compartilhar apenas os momentos felizes, a tal comparação automática na nossa mente acontece. E esse descanso está fazendo um bem danado pelo nosso bem-estar, acredite!

Estamos todo mundo literalmente no mesmo barco, talvez pela primeira vez na história da humanidade. Sai de cena a comparação (e competição) fútil, entra a empatia e solidariedade. Ok, isso é um tanto idealizado e até utópico de se afirmar em termos generalizados, mas é uma movimentação que se intensificou. Ufa! Mais um alívio. O movimento mais importante, no entanto, é aquele do encontro ou reencontro com nós mesmos.

Vejo muitas pessoas se descobrindo. Descobrindo suas paixões, seus valores, novos talentos e hobbies… Vejo também muitas pessoas buscando deliberadamente conteúdos voltados ao autoconhecimento. E fico muito feliz em perceber essa movimentação.

Acredito que quanto mais nos conhecemos, nos tornamos pessoas melhores e isso se expande em todos os setores da nossa vida. Já que não podemos ir atualmente a lugar algum, que tal aproveitar e fazer uma imersão em nós mesmos? Garanto que vai valer a pena! E quando tudo voltar ao normal? Bom, voltaremos a frequentar shows, bares e restaurantes badalados. E vamos aproveitar muito esses momentos!

Talvez de um jeito que nunca aproveitamos antes! E, vez ou outra, ficaremos em casa sozinhos, de pijama, vendo filme. E tudo bem também, saberemos tirar proveito desses momentos mais introspectivos. Não sairemos os mesmos dessa experiência. Ufa! Que alívio! A quarentena não será em vão.

Texto originalmente publicado no site de notícias ND+ no dia 02/08/2020
https://ndmais.com.br/opiniao/artigo/o-alivio-da-quarentena/

Você costuma seguir seu coração?

“O coração tem razões que a própria razão desconhece…”

Já ouviu isso né? Mas alguma vez você já parou pra pensar no que isso realmente significa?

Quando eu era mais nova e tinha dúvidas em relação a alguma coisa e compartilhava essa dúvida com minha mãe, ela me perguntava: ‘o que seu coração diz?’ Eu lembro que ficava muito incomodada com essa pergunta porque eu simplesmente não sabia o que dizer. Respondia então assim: ‘meu coração não diz nada!” Mas a verdade é que era eu quem não sabia ouvir.

Ouvir o coração significa ouvir a nossa essência em profundidade, sem qualquer tipo de juízo de valor e ‘conceitos’ e até ‘pré-conceitos’ que vamos absorvendo ao longo da vida. E isso não é nada fácil. Para ouvir o coração, é preciso despir-se. E a maioria de nós não está preparada para tal.

Dúvidas sobre qual caminho seguir? Pergunte ao coração.

Ir à escola, fazer uma faculdade (ou duas, três…), conseguir um bom emprego e se aposentar com 60 e poucos (ou muitos) anos. Apesar de que, na minha concepção, esse roteiro de vida laboral já está bem ultrapassado, muitos ainda o seguem, ou pior: o perseguem , sem questionamentos, acreditando se tratar da única alternativa possível ou viável para se garantir um bom score no incrível jogo chamado ‘vida’.

No lado pessoal não é muito diferente: namorar, casar, ter filhos. Em alguns casos, tem até idade para cada uma dessas etapas. A família cobra, a sociedade cobra isso. Logo, deve ser o certo, certo? Pode ser que sim. A verdade é que em nenhum dos casos existe um ‘certo’ e ‘errado’ existe apenas o certo para cada pessoa e este certo pode ser diferente do que estamos acostumados a ouvir como sendo o ‘certo’.

Falando nisso, tem outro texto sobre o ‘certo’ e o ‘certo a fazer’. Sim, tem diferença! Para ler, é só clicar aqui!

Ai, Tati, tá confuso isso!

Sim, eu sei, é confuso mesmo. Meu objetivo aqui é justamente provocar uma reflexão sobre os caminhos que escolhemos, que podem ser iguais ou diferentes daqueles que imaginávamos quando éramos crianças ou adolescentes. Ou que nossos pais, avós, tios e tias imaginavam… E tudo bem. E tudo bem também mudar de caminho quantas vezes acharmos necessário. Se essas mudanças forem feitas de acordo com o coração, o caminho sempre vai estar certo e eventualmente tudo vai fazer sentido. Mesmo que às vezes pareça loucura. Loucura maior, na minha opinião, seria não se permitir fazê-las.

Amar é… Não precisar, mas querer estar com a pessoa amada

Sempre fui contra a ideia da ‘tampa da panela’ ou ‘a outra metade da laranja’. Para mim, num relacionamento, são duas laranjas inteiras que, juntas, fazem um suco maravilhoso! Se não for assim, pode ser carência, dependência, solidão ou qualquer outra coisa, menos amor.

Por que será que insistem tanto na ideia de que precisamos de alguém que nos complete? Afinal, não somos seres perfeitos criados à imagem de Deus? Desta forma, como poderíamos ser incompletos? Até porque, com exceção dos irmãos gêmeos, nascemos sozinhos né? E sozinhos também vivemos todas as experiências que fazem de nós seres únicos. E completos na sua essência.

Por que insistir nessa ideia de que, num relacionamento, a outra pessoa vai nos completar?

Talvez já tenha sido assim… Antigamente, por exemplo, quando as mulheres não podiam trabalhar, dependiam financeiramente do marido para sobreviver. Os homens, por sua vez, mal sabiam fritar um ovo (ok, alguns muitos até hoje não sabem) e dependiam das mulheres para ter comida em casa e as tarefas domésticas concluídas.

As coisas mudaram – graças a Deus! Hoje as mulheres não precisam mais que um homem pague suas contas e os homens, por sua vez, já estão se virando melhor na cozinha (em último caso, tem o micro-ondas). Acontece também o contrário: mulheres muito bem sucedidas financeiramente e homens optando por cuidar das tarefas domésticas. Claro, estou falando em estereótipos, mas chamo atenção aqui para o fato de que a questão ‘sobrevivência’ não é mais um fator determinante para se relacionar.

Ok, tem a tal da carência e solidão também, que vem crescendo cada vez mais com os avanços tecnológicos. Quem aguenta ‘falar com máquinas’ o tempo todo? Somos seres sociáveis e precisamos sim da companhia de outras pessoas. Eis que os aplicativos de relacionamento surgiram para resolver com apenas um clique este problema – ainda que de forma momentânea.

Tem pessoas que se relacionam por status ou porque decidem que chegou o momento de construir uma família. Em ambos os casos, o outro entra para suprir uma carência ou necessidade. E talvez aqui a teoria da ‘metade da laranja’ ainda se encaixe bem. Pode virar amor? Pode. Mas está mais para transação comercial.

Acredito que o amor seja mais que isso. É saber que não precisamos da outra pessoa, mas queremos estar com ela. É se sentir bem sozinho, mas melhor com a outra pessoa. Tipo feijão com arroz, sabe? Duas coisas distintas, que podem muito bem funcionar sozinhas ou com outros acompanhamentos, mas que, juntas, são imbatíveis.